No dia 28 de novembro, a organização não governamental Mercy For Animals publicou uma investigação feita no Brasil em fazendas que fornecem carne de porcos para a marca Aurora, expondo uma série de crueldades inaceitáveis às quais os animais são submetidos. A ação na verdade visa o Grupo Pão de Açúcar, que está sendo pressionado para não vender mais produtos que tenham sido produzidos com esse tipo de crueldade. O GPA também já foi alvo de outras campanhas, especialmente para cessar a comercialização de ovos produzidos com galinhas confinadas.

Independente da opinião que os empresários tenham sobre as causa em questão, fica claro que, do ponto de vista mercadológico, empresas precisam lidar com novos tipos de pressões, muito mais intensos e profissionais. Organizações brasileiras ainda não estão acostumadas a terem suas produções infiltradas por espiões que visam expor o baixo padrão de qualidade em suas cadeias produtivas – um tipo de denúncia factível e visual que limita as possibilidades de defesa e justificativas pela empresa.

Cada vez mais rápido caminhamos para um cenário no qual as empresas não conseguirão mais manter “esqueletos no armário”, ou fatos escondidos de seu público. Hoje em dia todo mundo tem um celular com câmera e pode denunciar, muitas ONGs estão altamente profissionalizadas e os órgãos de defesa do consumidor também tem fechado o cerco de forma contundente. Parece pouco, mas esse cenário na verdade muda tudo.

Em primeiro lugar, as empresas precisam assumir responsabilidade por toda sua cadeia produtiva. Não tem mais espaço para um varejista gigante que lucra com produtos feitos de forma imoral. Não tem mais espaço para marcas de roupa que barateiam seus itens com mão-de-obra escrava em países subdesenvolvidos. Ninguém se importa se o Pão de Açúcar não maneja os animais diretamente ou se a Zara terceirizou a costura de suas peças – quando uma denúncia vem à tona, todos os que lucram com esse negócio são responsabilizados (e com razão).

Além disso, também é preciso rever os processos produtivos sob uma nova ótica. O mercado passou os últimos anos investindo fortemente em sustentabilidade com foco em resíduos, água e poluentes, porém isso não é mais suficiente. Nosso planeta está se degradando em velocidade acelerada e não há mais tempo para ações paliativas e marketeiras: se as empresas não se comprometerem imediatamente com uma produção sustentável como um todo, nos próximos anos sofreremos consequências ambientais gravíssimas. Não se trata mais de lutar pelo mundo que vamos deixar aos nossos filhos, mas de agir no mundo em que estamos vivendo hoje.

Uma das revoluções mais evidentes para os próximos anos acontecerá exatamente na indústria de alimentos, que tanto tem sido pressionada. Nomes como Bill Gates, Richard Branson, Sergey Brin, Marc Benioff e Leonardo DiCaprio estão investindo milhões de dólares em novas tecnologias de alimentos. Se engana quem pensa que eles desafiam a indústria tradicional, ao contrário! Junto deles estão empresas como a Tyson (maior produtora de carnes dos EUA), Unilever, Kraft Food, Dean Foods, Pinnacle Foods, General Mills, Danone, Nestlé, dentre outras.

As maiores empresas e os maiores investidores do mundo apostam, juntos, que nos próximos 30 anos toda a cadeia de produção de alimentos terá sido transformada para que não seja mais necessário criar animais para fazer comida. Eles investem em tecnologias de carnes vegetais ou então na chamada “Carne Limpa”, na qual os tecidos são cultivados em laboratório e a carne é gerada sem a necessidade de criação de animais.

Esse exemplo dos maiores líderes de mercado nos ensina qual é a saída para as pressões que citei no início deste texto: inovação. Aquelas empresas que se indispõe com pressões populares e seguem cometendo os mesmos erros terão seus dias contados! Enquanto isso, outros grupos são capazes de perceber uma mudança no mercado e adaptar suas produções, criando novos processos e novos produtos para resolver o mesmo problema. Sempre que surge uma tendência de consumo as empresas precisam escolher se vão perder mercado ou se vão lucrar com ela – é para isso que as tendências são estudadas, afinal.

 

 

Gustavo Guadagnini